Projeto de comunicação executado com recurso de terceiro — verba pública, fundo, doador ou edital — tem uma exigência que campanha comum não tem: cada entrega precisa ser comprovável depois, por alguém que não estava lá.
Isso muda o método inteiro. Não é a peça que fica mais difícil; é a documentação em torno dela. Este texto descreve como estruturamos esse tipo de projeto.
O que diferencia projeto financiado de demanda avulsa
Quem contrata comunicação com recurso próprio avalia o resultado. Quem contrata com recurso de terceiro precisa demonstrar o resultado — e demonstrar também o processo que levou até ele.
Na prática, isso impõe quatro condições desde o primeiro dia:
- Escopo escrito antes do início, com o que está fora dele igualmente escrito;
- Entregáveis definidos por marco, não por esforço;
- Registro de decisão — quem pediu a mudança, quando, e o que ela deslocou no cronograma;
- Documentação em formato que o financiador aceita, produzida durante o projeto e não no fim.
A quarta é onde a maioria dos projetos quebra. A equipe executa bem, e na hora da prestação de contas descobre que não guardou o que precisava guardar.
O ponto de partida e as quatro etapas
Todo projeto começa pela necessidade que a organização já identificou: o que precisa comunicar, para quem e por quê. Essa leitura é de quem contrata — é ela que aparece na especificação técnica do termo de referência, do edital ou da chamada. Não fazemos o diagnóstico; partimos dele.
1. Planejamento estratégico de comunicação
Com a necessidade em mãos, o planejamento define objetivos, públicos, mensagem, canais e indicadores da comunicação.
O planejamento também respeita os temas materiais que a organização definiu. Pesquisa publicada na ORGANICOM em 2022, que analisou nove relatórios corporativos premiados, mostra que os temas críticos são identificados por consulta aos públicos de interesse — não por decisão interna da área de comunicação.
Pauta que não sai desse processo produz material descolado: fala do que é agradável de contar, não do que é material.
2. Plano de execução
O plano de execução diz como o escopo vai ser executado: equipe, prazos, marcos de entrega e gestão de risco, definidos antes do início.
O escopo é a peça que protege as duas partes. Ele declara o que será entregue, em que formato, em que quantidade e sob que critério de aceite.
Cuidado com: escopo que descreve atividade em vez de entregável. “Gestão de redes sociais” não é escopo. “Doze publicações mensais, sendo quatro em vídeo, com aprovação três dias úteis antes da veiculação” é escopo.
O escopo também declara o que fica de fora. Período de análise e retorno do cliente, por exemplo, não é computado no prazo de execução — e isso precisa estar escrito antes, não ser argumentado depois.
O cronograma de projeto financiado se organiza por marco de entrega, porque é o marco que libera parcela e que aparece no relatório. Datas intermediárias servem à equipe; marcos servem ao contrato.
Cada marco precisa de três informações: o que é entregue, quem aprova e quanto tempo a aprovação leva.
3. Gestão do projeto do começo ao fim
É a etapa em que a equipe executa: contratação e gerenciamento de fornecedores, fluxo de informações entre as partes interessadas e adequação dos materiais até a finalização e o aceite pelo contratante.
Durante a execução, o trabalho de gestão é registrar. Aprovação por e-mail, mudança de escopo solicitada em reunião, atraso causado por terceiro — tudo isso vira documento no momento em que acontece.
A comunicação interna é parte da execução, não um extra. Equipe que não sabe o que a organização assumiu publicamente não sustenta o compromisso quando é perguntada em campo.
4. Prestação de contas
Se as três etapas anteriores foram feitas, esta é montagem. O relatório técnico reúne o que já existe: escopo original, marcos entregues, evidências de execução de cada um, registro das mudanças, indicadores medidos e as notas fiscais adequadas aos serviços contratados.
Cuidado com: relatório que só mostra o que deu certo. A pesquisa da ORGANICOM citada acima identificou preponderância clara dos aspectos positivos sobre os negativos na divulgação de resultados — em relatórios premiados. Relato que só ganha não é lido como bom desempenho; é lido como relato incompleto. O que deu errado, e o que se fez a respeito, sustenta a credibilidade do resto.
Três erros que custam caro
- Começar pela peça. Projeto que abre com “precisamos de um vídeo” pula o planejamento e o escopo, e descobre no meio do caminho que o vídeo não era o problema;
- Escopo aberto. Sem limite declarado, cada pedido novo entra como se sempre tivesse estado ali. O custo aparece no prazo, e o prazo aparece na prestação de contas;
- Documentar no fim. Reconstituir seis meses de decisão na véspera do relatório é onde o projeto bem executado vira problema administrativo.
Como a Nulo conduz
Atuamos como gestores e executores do projeto do começo ao fim, para órgãos públicos, fundos de investimento, fundações e organizações do terceiro setor. O enquadramento conceitual que orienta o método está em o que é comunicação ESG, o que não é e como se mede.
Se a contratação será feita por edital, veja também como elaborar o termo de referência.
Fontes
- LOBATO, José Augusto Mendes; NEIVA, Rodrigo César Severino. Organizações, discursos e práticas em sustentabilidade: um estudo da comunicação ESG em relatórios corporativos. ORGANICOM, São Paulo, ano 19, n. 39, p. 71-86, maio/ago. 2022.
Próximos passos
Para discutir escopo, prazo ou condições de um projeto, veja a página de comunicação ESG para setor público e terceiro setor ou fale com a gente pelo WhatsApp. Permanecemos à disposição.
Foto de Moe Magners.