Introdução à sintaxe da cultura digital

Hoje a minha abordagem será apenas pra apresentar extensões sobre possibilidades e limitações da cultura digital na perspectiva de Lev Manovich. O autor foi indicado por Guto Nóbrega – artista, pesquisador e coordena do espaço NANO – Núcleo de Arte e Novos Organismos, um laboratório de pesquisa que explora o cruzamento entre ciência, tecnologia e arte – em algum momento da minha supervisão com ele neste laboratório no Brasil há algum tempo atrás. Agora de volta ao Porto, de volta a FBAUP, de volta ao programa de mestrado em ‘Design da Imagem’, de volta ao grupo de estudos ‘Identidades – Intercâmbio Intercultural‘, de volta às aulas, leituras de artigos e livros sobre novas mídias, dados culturais, inteligência artificial e mais informações como estas. Eu sinto como se tivesse à assistir a uma varredura da vida no modo digital, usando uma “metalinguagem” que este próprio meio criou e armazenou em “metadados“; Isso parece complexo, mas apenas cito pra elucidar o conjunto básico de “sintaxe”, ainda nos termos da linguística e servir de metáfora do funcionamento computacional na leitura de dados:

“Sintaxe é o conjunto de regras, princípios e processos que regem a estrutura das frases em um determinado idioma, especificamente a ordem das palavras e a pontuação. O termo sintaxe também é usado para se referir ao estudo de tais princípios e processos. O objetivo de muitos sintáticos é descobrir as regras sintáticas comuns a todas as línguas. ” – Wikipédia.

Talvez agora esteja mais claro o que queria dizer. A cultura digital atacou a vida social, penetrou e modificou a comunicação em todas as línguas. Nada mal para uma sociedade que durante séculos procurou conhecimento por conta própria, e hoje pode acessar uma dimensão infinita de informações, graças a sua habilidade de criar, modificar e gerir sintaxes; os programadores de sistemas de computadores sabem muito bem o que uma linha de código é capaz de fazer, se esta for combinada de um modo inteligente com uma base de dados. Soa assustador o poder que estes dispositivos têm e podem vir a ganhar, a medida que percebemos a complexidade que envolvem estas estruturas.

Untitled by Dusta on 500px.com
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E pra compreender melhor este universo das informações, passei noites lendo Lev Manovich com sabor doce, porque ele tem um discurso atual sobre ‘auto-imagem’, e faz estudos aprofundados analisando grande volume de dados. Não que seja difícil fazer isso em dias como hoje, com todas as ferramentas disponíveis no mundo digital. Ainda assim, o que mais me interessou neste autor foram as questões que relata terem sido presentes no decorrer da sua pesquisa. Escolhi apresentá-lo de um modo mais detalhado, a partir da leitura do artigo “Dados culturais: Possibilidades e Limitações de Arquivos Digitalizados”, tentando intercalar os episódios que vivencio, as questões que carrego e os encontros que tive com trechos perturbadores dele. A começar por este: “o software de redes sociais leva a uma menor diversidade no conteúdo gerado pelos usuários?” (pág.271).

Vou aproveitar pra lançar esta pergunta à Maria Portela – artista, pesquisa multimídia e coautora deste blog – para que responda a sua maneira, pensando que neste momento o seu estudo toca este ponto de forma precisa. Ela agora trabalha mais próxima dos desafios da plataforma da ‘ACQQ’ criada para “Associação Quilombola de Conceição das Crioulas“, por nós em parceria com o grupo Identidades no semestre passado. Dois meses após o lançamento, alguns problemas técnicos na base de dados e, finalmente, chegamos ao próximo passo. É necessário encontrar uma solução para envolver os membros dessa comunidade local na produção de conteúdo digital.

Em paralelo, busco diretrizes para conectar minha pesquisa sobre “Os processos mentais da imagem no corpo outro” com o trabalho que desenvolvemos na plataforma de arquivo digital do grupo Identidades. Na última reunião sobre o tema, falamos como organizar vinte anos de história sem perder integridade de ações, artigos, teses, vídeos, fotos e relatórios que formam o banco de dados de mais de 300 GB, armazenados hoje apenas em dois HD externos. Nós pensamos em indexar o arquivo físico e digital, antes de começar a selecionar o material que possui diferentes arquivos de mídia: PDF, DOC; JPG, PNG e etc. Aparentemente, as categorias de primeira instância serão ‘tags’ com dados como: ano, país, tipo de arquivo e palavras-chave; mas isso não parece ser suficiente e Lev Manovich já havia pensado nisso quando disse: “como podemos compilar amostras representativas que abrangem sistematicamente tudo criado em um determinado período, área geográfica e mídia – ou em muitos desses períodos e áreas juntos?” (p 264).

É claro que isso só é problemático, porque queremos uma “amostra cultural equilibrada”, e porque sabemos que isso pode ser definido de múltiplas formas, e que essa proporção depende de nós agora. Mas todos os trabalhos produzidos em média, período e local específicos devem ser selecionados e exibidos com qual foco? No que o público realmente gostaria de ler, assistir e escutar ou seguir algum critério próprio? Lev Manovich continua e a alertar: “O que quer que façamos, precisamos de um procedimento sistemático, e não de um simples julgamento.” (Pág. 267)

Hammersmith. by Dusta on 500px.com
‘Hammersmith’

 

Eu sinto uma responsabilidade neste trabalho, porque tantas pessoas passaram neste projeto e as experiências imateriais parecem ser os elementos mais importantes. Neste caso: como categorizar assuntos, sensações e percepções num mapa mental sistematizado destes arquivos, sem que a essência se perca?. “Em vez de apenas tratar a cultura como “pontos de dados” que juntos criam padrões que queremos descobrir, desconsiderando os pontos individuais depois, a Análise Cultural deve prestar atenção igual a ambos os padrões e artefatos, experiências e interações individuais“, afirmou Ele. (Pág.275).

Vale lembrar que, o Manovich foi um dos primeiros autores a falar sobre o termo “Análise Cultural” em volumes de dados. E a espalhar os objetivos disso “para nos ajudar a encontrar artefatos verdadeiramente únicos nos universos infinitos de média que estão sendo criados“. Argumentando que “mesmo que outros artefatos não sejam únicos na maioria das formas, eles ainda podem ter algo único de outras maneiras, e que pode se perder se os reduzirmos a padrões“, por isso afirma que “combina uma perspectiva especial de ciências e de humanidades – a preocupação do primeiro com as leis e regularidades gerais, e a preocupação deste último com objetos culturais únicos“. (Pág. 275)

O que isso significa na prática? Visualizemos os sites de pesquisa, em geral estes possuem uma base de dados conectada a outras bases, afim de entregar ao usuário – a partir da busca simples de palavras-chaves – respostas precisas. Nada de extraordinário até aqui, se este sistema não fosse capaz de registrar o comportamento dos usuários no uso da plataforma e depois usá-los como variáveis que aprimoram a busca destes resultados. A função deste algoritmo é servir como filtro de informação, devido ao grande volume de dados armazenados na WWW – World Wide Web. Em contrapartida, a preocupação é que estes filtros objetivos na análise cultural desabilite o que podemos chamar de “pesquisa cultural profunda” – para que os usuários possam analisar qualquer tipo de conteúdo cultural em detalhes e usar os resultados dessa análise de novas maneiras.

Tendo em conta todas estas preocupações, a questão que cerca agora a concepção do arquivo digital do Identidades, é justamente a de: “Como encontrar a “sintaxe” adequada para sistematizar a quantidade de arquivos que temos, sem que estes percam a lógica do todo e mantenham seu caráter único?”. Vamos conversar mais sobre estas e outras questões na próxima reunião do grupo, e então volto aqui para apresentar pra Vocês mais pontos práticos à cruzar com o artigo “Como seguir as culturas digitais globais ou Análises culturais para iniciantes” também de Lev Manovich.

Referência

MANOVICH, Lev (2017). Cultural Data: Possibilities and Limitations of Digitized Archives. Em: http://manovich.net/content/04-projects/102-cultural-data/cultural_data_article.pdf (Acessado em 28 de Novembro de 2017).

Juliana Polippo – Mestranda em ‘Design da Imagem’ pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e especialista em ‘Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico’ pela UEL – Universidade Estadual de Londrina, graduada em ‘Produção Multimídia’ pela Universidade Santa Cecília. E-mail: art@polippo.com .

Imagens.:

Dusta Shoots

 

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