Entrevista com Gabriel Tissier, o ator argentino que ganhou Bronze em Cannes na década de 90, e hoje é escultor pela diversão de ver madeiras ganhar vida no seu ateliê em Florianópolis.
Ao avistar olhares refletidos e expressos em linhas, pontos, círculos e quadrados, que ora se encontra na madeira pela ausência, ora pela mistura de cores, não resta dúvida que há essencialmente uma comunicação entre o que neste é artista e sua obra.
E estive presente neste sentimento do ponto de vista de um “espectador emancipado“, como define Jaques Ranciére em seu livro de mesmo título:
“Ora, como dizem os acusadores, é um mal ser espectador, por duas razões. Primeiramente, olhar é o contrário de conhecer. O espectador mantém-se diante de uma aparência ignorando o processo de produção dessa aparência ou a realidade por ela encoberta. Em segundo lugar, é o contrário de agir. O espectador fica imóvel em seu lugar, passivo. Ser espectador é estar separado ao mesmo tempo da capacidade de conhecer e do poder de agir.” (p.08)
Dotados de capacidade para conhecer e agir, abusei do fato de estar diante do artista e deste espetáculo em sua obra, quando despretensiosa passei pela sua “exposição” improvisada na Feira Canto da Ilha, que acontece nas calçadas da CUT – Central Única dos Trabalhadores – SC. O mais curioso foi perceber como os movimentos do artista, do próprio ator Gabriel Tissier se encontrava inscrito nos pedaços de madeira, que ele mesmo coleta em suas caminhadas nas areias da praia. Este indivíduo atuante descobriu que é capaz de ativar intrinsecamente uma porção de induções ao imaginário de seus espectadores, sem precisar recorrer a clássica interlocução desenhada e encenada dos donos deste ofício.

Alguns dias após o nosso primeiro contato na exposição, o escrevi e agendamos uma visita ao sua ateliê “Re-Criativo”, instalado nas proximidades de Pontas das Canas em Florianópolis. Era sexta-feira de manhã, e o endereço próximo convidava a pedalada de 3,4 km até o destino. Aproveitei o tempo do percurso para admitir que perguntaria tudo menos: “Qual é o seu processo criativo?”. Afinal, devem estar todos fartos deste mantra, tanto quanto Eu e possivelmente este Outro.
Sabia pouquíssimo de Tissier até chegar lá. E cheguei cheia de pulgas atrás da orelha, porque havia buscado o seu nome completo no Google e encontrado apenas um perfil de Linkedin bastante resumido. Pois bem, tratei de manter os ouvidos atentos, os olhos arregalados, a caneta na mão, a caderneta na outra e uma pergunta única na cabeça: “Onde, como, quando e por quê os grandes artistas se escondem?” – funcionou!
Tinha diante de mim um ator premiado com Leão de Bronze em Cannes em 1993, por sua performance no vídeo publicitário da Band Aid. Participações especiais em programas da televisão internacional MTV, além de diversas outras estatuetas como o Prêmio Nacional de Teatro Pepino’88, que recebeu em 1989 na Argentina.
O ateliê de Gabriel é a personificação da utopia de qualquer grande artista! – conclui isto pouco depois dele tirar todos estes coelhos da cartola e deixar-me catatônica!
Fui pega de surpresa! Neste instante a matéria automaticamente ganhou o ‘status quo’ de edição “Especial Grandes Artistas” com direito de reviver, tocar e editar parte do acervo fotográfico que conta a história de Tissier desde a sua 1ª apresentação de teatro, entre 1982-1985, quando ainda estudava na Escuela Nacional de Arte Dramático em Buenos Aires na Argentina.
De lá pra cá, houveram episódios emblemáticos na trajetória do artista, tais como a atuação no Grupo Dorrego, formado por ele e outros integrantes da Escuela, que coincidentemente acaba marcado pelo ‘boom‘ na produção de teatro em Buenos Aires ao início da democracia na Argentina. O ator conta com excitação os tempos de ‘Teatro de Rua’ onde atuavam em praças, escolas, comunidades locais e quaisquer outros espaços que pudessem haver públicos populares. E apesar da liberdade que se demarcava no país naquela época, chegou a ser preso e foi a delegacia vestido com seu figurino de boneco após uma intervenção na conhecida região da Feira de San Telmo.

“As coisas simplesmente aconteciam!“ – relembra Ele.
Em 1988 participa do Festival de Teatro Amador em Brasília com Grupo Dorrego e conhece sua esposa que também estava na altura trabalhando na produção. Inicia-se ali uma história de amor que faz o casal viver entre Argentina e Brasil por alguns anos. Tiveram passagens, moradas e participações na produção do ‘Festival de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte’, e chegaram em Florianópolis para uma temporada que já dura 23 anos.
Hoje o artista abusa de sua alma e produção contemporânea com a proposta de reconfiguração do espectador diante do ‘objeto-de-arte‘. A sua obra atual em si intervêm, envolve e traz questões centrais do entendimento de arte, além de transitar pela “ruptura estética que separa os efeitos das intenções”, sem que estas percam o real sabor da sensibilidade.
Leia a seguir trechos da entrevista na íntegra:
/MAG: Você que cita o diretor de teatro italiano, Eugenio Barba como influência marcante na sua trajetória de estudo e atuação; hoje, arrisca algum palpite para a questão central que ele lança ao grupo Odin Teatret em meados 1974, que seria “O que é um ator quando não se tem um espetáculo?”
Gabriel Tissier: Bem, o Eugenio Barba foi umas das figuras mais representativas no teatro por pelo menos 40 anos, e para todos aqueles artistas de teatro este discurso quer dizer ‘en una dimension mas intimista con respeito à sociedade‘, mais laboratorista, mais física, mais energética, que ele próprio consagrou como marca e marco. Responder esta questão que ele lança para mim é um grande desafio que vou arriscar humildemente: “Um ator é uma pessoa que participa da ação e com esta mesma ação passa a atuar na continuidade do ato, e em diferentes ocasiões e locações instala seu espetáculo, que nada mais é que uma ‘recriação’ de uma ação que criou, a partir do espetáculo como objeto. Sem o (ser) do ator não existe espetáculo, assim como o ator não vive sem o espetáculo como objeto. A vida é um espetáculo, e o espetáculo é uma ação constante.”
/MAG: Falou rapidamente sobre o papel social do artista, e também ressaltou que a sua vida e de sua família sempre foram na contramão dos ditos ‘padrões da sociedade‘, dito isso, quer dialogar com o ato e efeito do artista de se interessar por outras coisas, mais puras e mais duradouras, ao invés das desgraças e problemas de ordem prática e política? Ou apenas quer sugerir que seu cotidiano é como um hastear de coisas que dizem respeito a qualquer homem prático e político?
Gabriel Tissier: Se falo do papel social do artista é por entender que estou inserido numa sociedade, e que meu olhar é parte constitutiva do meu ser e que este não pode estar alheio a essa realidade. Apesar de meu olhar permitir que veja as coisas de modo ‘artístico’, não posso me retirar em si dessas coisas. Estou obrigado a participar, embora seja nula minha vontade de presenciar a cotidianidade, a mundanidade e factos que vivenciamos no Brasil, como está paralisação de caminhoneiros e as implicações políticas que isto produz na sociedade em efeitos práticos, e que consequentemente afetam-me por estar inserido nela seja como for.

/MAG: A sua casa é nitidamente ‘re/criação’ e extensão do ateliê. Como você se relaciona com este espaço semi-artístico e artístico que vive? Há alguma relação entre o que reflete na obra o que percebe enquanto belo entre um esculpir e outro?
Gabriel Tissier: Vou insistir na ideia que tenho da relação que existe entre ‘criação’ e ‘recriação’ para explicar a minha posição com respeito a arte, pois é através desta que sugiro uma visão particular das coisas, nem melhor, nem pior, tão pouco diferente da que as outras pessoas fazem em outras atividades de trabalho. O meu trabalho é sobre perceber, porque o que percebo alimenta a minha imaginação, e é dela que dependo para desempenhar a função de ‘criar’ vs. ‘recriar’, ou seja, o que quero dizer é que tudo acaba sendo cenário de possibilidade para o artístico.
/MAG: “Eis como André Michel expõe em sua teoria estética: << Quando uma obra de arte nos emociona, é que ela soube escolher representações que se combinam secretamente, pela qualidade do seu afecto, com as do inconsciente, para lhes roubar a carga afetiva. Ser artista é, por conseguinte, ser apto, por uma instituição fina e penetrante, para a escolha das representações, dos símbolos, palavras, sons, linhas, cores, que farão comunicar, por vias que o inconsciente ignora, inconsciente do autor com o leitor >>. Diga-nos, o que é essencialmente artístico?
Gabriel Tissier: Me sinto ousado tentando responder a uma questão que sai do campo da arte como objeto da realidade e mergulha nas profundezas do inconsciente. Acredito primeiramente que o artista é um indivíduo, esteja ele ciente da sociedade que se insere ou não. Todos possuem uma comunhão com o mundo que o cerca, e o artista nada difere das outras pessoas. Veja! Um grande cozinheiro não pode ser essencialmente artista? Um grande jardineiro não pode ser essencialmente artista? O artista é apenas um mensageiro capaz de ‘recriar’ imaginários para transmitir ideias e informações utilizando de seus artefatos, e estas que por sua vez podem ser recebidas, respondidas ou ignoradas como qualquer outra, tenha este o dom que tiver. E não se esqueça, todos nós somos apenas um olhar no meio de milhões de olhares.
. Referências
LISPECTOR, Clarice. A paixão segunda GH. 18ª. ed. Brasil: Rocco, 1964. 180 p.
MICHEL, André . Apêndice: Três Ensaios Breves: Origem sexual da percepção da beleza. In: ENES, JOSÉ. A autonomia da arte. 1ª. ed. Lisboa: União Gráfica, 1965. cap. I, p. 235-240. v. 1º.
OLIVEIRA, Roberta. Em busca de um teatro essencial. Disponível em: <http://www.italiaoggi.com.br/not04_0605/ital_not20050609b.htm>. Acesso em: 27 maio 2018.
RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.



