O texto está pronto, a capa ficou bonita na tela e o livro foi montado com ajuda de inteligência artificial. Aí o arquivo chega na gráfica e volta com uma lista de problemas. Isso acontece muito com livro feito com IA para impressão, e quase nunca por causa da IA em si. O problema é o arquivo: a ferramenta gera algo que funciona no celular, mas a gráfica precisa de outra coisa.
Este texto não é sobre usar ou não usar IA. É sobre o que falta no arquivo para ele virar livro impresso, e por que essa conferência continua sendo trabalho de gente.
Por que o livro feito com IA para impressão volta da gráfica
Tela e papel funcionam com lógicas diferentes. A tela mostra luz em RGB, numa resolução baixa que basta para o olho a um palmo de distância. A gráfica imprime tinta em CMYK, corta o papel com margem de erro e precisa que tudo o que está na página esteja dentro do arquivo, sem depender do computador de quem fez.
Ferramentas de IA, editores on-line e geradores de imagem são feitos para a tela. Entregam um arquivo que parece pronto, mas que não passa na conferência técnica da gráfica (a chamada pré-impressão). O que volta, na maioria das vezes, é uma combinação destes cinco problemas.
1. Imagem em RGB e em baixa resolução
Imagem gerada por IA costuma sair em RGB e no tamanho pensado para tela. Na página impressa, isso aparece de dois jeitos: a cor muda (os verdes e azuis muito vivos da tela não existem na tinta e ficam apagados) e a imagem fica serrilhada ou borrada quando ampliada para o tamanho da página.
Para impressão, a referência de mercado é imagem a 300 dpi no tamanho em que vai ser impressa e convertida para CMYK com o perfil indicado pela gráfica. Aumentar a resolução de uma imagem pequena no programa não resolve: o arquivo fica maior, mas o detalhe que não existia continua não existindo.
2. Texto dentro da imagem
Muita capa e muita ilustração feitas com IA trazem o texto já desenhado dentro da imagem: título, nome do autor, balões, legendas. Isso cria três problemas. O texto não pode ser revisado (erro de digitação vira erro de imagem), sai com a resolução da imagem e não com a nitidez de uma fonte, e não se ajusta quando a gráfica pede para mudar a lombada ou o formato.
Na diagramação, título, nome do autor, ISBN e qualquer texto que precise ser lido entram como texto de verdade, em camada separada da imagem.
3. Sem sangria
Toda imagem ou fundo que encosta na borda da página precisa passar um pouco do limite do corte. Essa sobra se chama sangria. Sem ela, qualquer variação mínima da guilhotina deixa um filete branco na borda. Arquivo exportado de ferramenta on-line geralmente tem o tamanho exato da página e nenhuma sobra.
A medida da sangria varia de gráfica para gráfica e deve ser conferida na especificação dela antes de fechar o arquivo.
4. Arquivo aberto sem as fontes
Quando o arquivo chega à gráfica aberto (um documento do Word, um arquivo do InDesign ou de um editor on-line) e as fontes usadas nele não vão junto, o computador da gráfica substitui por outra. O resultado vai de espaçamento quebrado a caracteres trocados, principalmente nos acentos. Em livro, isso pode significar páginas que mudam de lugar. Isso não acontece com o PDF fechado, que já leva as fontes dentro dele.
5. Sem PDF fechado
O último problema é o mais comum: não existe um PDF de impressão. Existe um arquivo do editor on-line, um PDF exportado “para leitura” ou um arquivo do Word. A gráfica precisa de um PDF fechado para impressão: miolo e capa separados, capa com lombada calculada pelo número de páginas e pelo papel, marcas de corte e cores no padrão que ela pediu.
O que a impressão pede (e o que a IA não confere)
A lista de exigências é curta. O que dá trabalho é conferir uma por uma, página por página:
- imagens a 300 dpi no tamanho de impressão;
- cores convertidas para CMYK, com o perfil indicado pela gráfica;
- sangria em todas as páginas com elemento na borda;
- fontes enviadas junto, quando o arquivo for aberto (no PDF fechado, elas já vão dentro);
- capa com lombada calculada para o papel e o número de páginas;
- PDF fechado conforme a especificação da gráfica;
- revisão humana do texto e da prova antes da tiragem.
O último item é o que nenhuma ferramenta substitui. Uma IA pode gerar o texto e a imagem, mas não responde por eles: não sabe se a fonte trocou um acento na página 87, se a legenda ficou atrás da imagem ou se o capítulo 4 foi repetido. Quem confere a prova é uma pessoa, com o arquivo final aberto, antes de mandar imprimir.
Direitos de imagem: quem é o autor do que a IA gerou
Aqui o problema deixa de ser técnico. A Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/1998) define, no art. 11, que “autor é a pessoa física criadora de obra literária, artística ou científica”. E o art. 29 diz que a reprodução de uma obra depende de autorização prévia e expressa do autor.
Na prática, isso pede duas perguntas para cada imagem do livro:
- De onde ela veio? Imagem gerada por IA, banco de imagens, foto própria, ilustração encomendada. Cada origem tem uma regra de uso, e a licença do banco ou da ferramenta precisa permitir uso comercial em livro impresso;
- Ela reproduz algo de outra pessoa? Imagem que imita um personagem conhecido, a obra de um ilustrador ou uma marca registrada continua sendo um problema, mesmo que tenha sido gerada por uma máquina.
A discussão sobre a proteção de conteúdo gerado por IA ainda está em aberto em vários países. Nos Estados Unidos, o relatório do U.S. Copyright Office sobre IA e direitos autorais (Parte 2, publicado em 29 de janeiro de 2025) concluiu que o resultado gerado por IA só tem proteção quando uma pessoa determina elementos expressivos suficientes, e que dar comandos (prompts) não basta. O mesmo relatório diz que usar IA como ferramenta ou incluir material gerado por IA numa obra maior, feita por uma pessoa, não impede a proteção do que é humano.
O relatório não é lei brasileira, mas mostra a direção do debate: quanto mais escolha e intervenção humana no livro, mais claro fica o que é obra de quem.
ISBN: o livro precisa de um registro
Livro que vai circular em livrarias, bibliotecas e na cadeia de distribuição precisa de ISBN. No Brasil, o serviço é operado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) desde 1º de março de 2020, por indicação da Agência Internacional do ISBN.
Um detalhe que costuma passar despercebido: o Manual do Usuário ISBN da CBL explica como solicitar o número. Ele entra na ficha catalográfica e no código de barras da capa, e os dois precisam estar no arquivo antes do fechamento.
Como conferir antes de mandar para a gráfica
Se o livro já está pronto e foi feito com IA, a ordem mais segura é esta:
- Peça à gráfica a especificação técnica dela (formato, sangria, perfil de cor, tipo de PDF);
- Liste todas as imagens do livro, com a origem e a licença de cada uma;
- Tire das imagens qualquer texto que precise ser lido e recoloque como texto na diagramação;
- Substitua as imagens que não chegam a 300 dpi no tamanho de impressão;
- Faça a revisão do texto antes da diagramação final, não depois;
- Gere o PDF de impressão e confira a prova inteira, página por página;
- Só então aprove a tiragem.
Onde a Nulo entra
Pelo Selo Editorial Nulo, o autor passa por leitura crítica, preparação e revisão, projeto gráfico e fechamento de arquivos para gráfica, com ISBN e ficha catalográfica emitidos com o nome do autor. Os direitos ficam com o autor, e a Nulo não comercializa a obra.
Para editoras e instituições, o serviço de editoração reúne revisão, projeto gráfico, diagramação e ilustração num ponto focal só, com o material fechado para gráfica. Quando o autor traz textos e imagens feitos com IA, a Nulo reproduz a obra a partir desse material e deixa o arquivo de acordo com as formatações necessárias para a correta impressão.
Se a gente receber um arquivo feito com IA, o trabalho é praticamente refazer o livro do zero. Não é só conferir o que já existe, corrigir o que não passa na gráfica e devolver um arquivo que imprime como foi pensado – será preciso montar todo o livro novamente no software Adobe Indesign, utilizando a estrutura e a formatação adequadas para a impressão.
Na Nulo, a IA entra como ferramenta e nunca sozinha: ela ajuda nas tarefas que pedem agilidade, e toda página é conferida por pessoas. Também não criamos conteúdo no lugar do autor: o texto e as imagens são os que ele entregou, e o que falta ou está sem origem definida vira pendência para o autor resolver antes de o livro ir para a gráfica.
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